quando és o insecto com o ventre para o céu
quando estás farto de espernear e desistes
quando vês enfim a terra girar à tua volta
e só tu estás parado no momento único
quando vês nos teus pés uma correia
quando bates as asas e não voas
quando estás exposto num poleiro
quando a tua natureza está agrilhoada
e ouves dizer que nasceste em cativeiro
e sabes da memória dos tempos do brilho da liberdade
duma época sem fronteiras onde se batem as asas
onde cada um é cada um e cada um é deus
valoroso e admirável ser único
algo que apenas intuis
vem de noite, por favor
e corta-lhe as correntes
prefere morrer na natureza viva
a viver na jaula da sua neurose.
16 de Setembro de 2009
7 de Setembro de 2009
Correio de guerra
Com o fumo adocicado, travo a uma dor velha
todos os peões ao centro do tabuleiro.
Cada um carrega nos ombros o pesado ego:
deixai-o cair no chão de pedra como lastro...
--
e soltando a mão dos duros ossos
moldar em argila um ventre suave
lugar seguro, nunca mais.
--
talvez se desatem todos os nós duma só vez
e o laço da forca se torne uma suave carícia
cicatriz no caminho de terra, visto de longe.
--
ou então acordas e ainda chovem lágrimas
o vento do norte transporta a tempestade.
14 de Agosto de 2009
Despacho nº 000/000 - domínio público
Amar é estar no círculo de olhos fechados e sentir o barco dançar
Amar são os mil e um nomes da sua essência e uma vida incógnita
Amar é mergulhar debaixo de água e ver medusas transparentes
Amar é seguro como queima o sol e a lua cheia guarda magia em segredo
Amar é a voz estrangulada no berço e recuperar lentamente a força bravia
Amar é toda a estrela-árvore-pequeno grão-coruja-abraço e música
--
o silêncio também se toca
--
um dia já sou - sei - serei -a-mar
--
publicado em diário da RAP/ública 99
faça-se público em todas as repartições
7 de Agosto de 2009
Lua Cheia
Que há de novo com a lua cheia
Trazendo na mão o bouquet da florida dor
Amar é tantas vezes deixar ir
De novo e de novo e de novo
na roda gigante de saia rodando.
Amarelo redondo queijo guardado no céu
Uma nocturna via rápida pelo mar dentro
Estrada de luz atravessando o calor.
O coração despido deitado no chão
Sobre a areia molhada apenas estavam
Corpos paralelos em silêncio prateado.
Aqueles que ao longe julgavam ver
Uma pedra rolando na onda brilhante
Era o peito de ave ferida que aí ficara
Tão dorido se fez sólido, pedrinha de charco
Embatendo nos cascos dos navios-fantasma.
Trazendo na mão o bouquet da florida dor
Amar é tantas vezes deixar ir
De novo e de novo e de novo
na roda gigante de saia rodando.
Amarelo redondo queijo guardado no céu
Uma nocturna via rápida pelo mar dentro
Estrada de luz atravessando o calor.
O coração despido deitado no chão
Sobre a areia molhada apenas estavam
Corpos paralelos em silêncio prateado.
Aqueles que ao longe julgavam ver
Uma pedra rolando na onda brilhante
Era o peito de ave ferida que aí ficara
Tão dorido se fez sólido, pedrinha de charco
Embatendo nos cascos dos navios-fantasma.
16 de Julho de 2009
Granada de mão
Voltaste da guerra pelas escadas rolantes
exangue,corpo de silvas e balas perdidas
Que fazer com a essência, identidade, as perguntas
Que fazer com as feridas abertas senão lambê-las.
Prisão,um corredor antigo,saltar o pesadelo.
Suando atiraste a almofada, abriste a janela...
ela ainda dormia serena como um forte.
Que fazer com a memória desvendada,
Que fazer com o pássaro moribundo,
para sempre guardião do seu segredo.
Aquela brisa fresca de manhã nova
entrando pela janela cantando baixinho....
e o sono ficando mais leve como folhas soltas
como recados de infância,como beijos.
Depois da língua, da fúria, dos abraços
deitei-me ao seu lado e assim estivemos
mil e uma fantasias e nada na bagagem
a medo,muito a medo, recomeçámos.
15 de Junho de 2009
Circuito de Manutenção
O vértice de ver e lábios como ameixas
pernas de garças varrendo os sapais
é o tempo dos caracóis em cachos
trepando paredes claras e quentes
ou desarmando num rosto redondo.
--
Corriam as telas pintadas sobre os trilhos
brilhantes como lâminas; afundei no assento
-quantos quilómetros faltarão ainda percorrer-
suspiro -para pousar a mala à porta da resposta.
Subindo e descendo a estreita faixa atlântica,
desencontro-me da figura invisível.
--
Agora dançamos com a verdade nos olhos.
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